Um.
Eis o mais puro estado de felicidade;
Um cão que não sabe ganir (nem uivar).
Não sabe por nunca necessitar,
Por isso nunca aprendeu.
Ah!, Mas uivasse ele como eu!
Pronto, pronto, pronto,
Parem o poema que isto foi só p’ra rimar,
Que, a mim, a vida já me doeu,
E assim sou feliz como o ar,
Feliz como quem nunca viveu.
Dois.
Dói-me um bocado o pouco que temos, sequestradora de carne: um poeta, um palhaço e um clandestino, isto sem contar com o negrume insustentável do teu haurir; mas entre o isto ambíguo e o tudo isto cénico, tudo que há são interpretações armadilhadas ao teu cuidado,
E ao teu ser devorador
Pois devoras o meu amor
E ele não pára de crescer
Pois tu não paras de o comer.
Três.
Eu sei que há uma luz cabal que te persegue e protege e envolve e põe tudo de volta no seu devido lugar, mas será que se olhasses
O mundo
Verias,
Repararias nesta melodia prodigiosamente lúgubre de pessoas,
Um mar surdo de gente que não se consegue ouvir.
Abençoa este profundo leito para nele e na sua profunda inocência cresceres comigo, aprenderes a agir e a seres profunda e paciente.
Quatro.
Estas lágrimas não vão a lado nenhum pois o amor deixará de ser suficiente. O que significa um dia? O que significa alguém voltar? É absurdo; tudo anda em círculos.
Cinco.
A necessidade idónea é uma via magicamente plausível para a fuga do meu fluxo ideal de esquecer borgeano, o do memorável primata, indelével ao ser, ao cortar o prostíbulo frio, ao gérmen da eternidade.
Seis.
A renda de ideias deu nó; forçámo-la e ela quebrou-se; intensifiquemos, pois, então, mais ainda o ditoso trabalho nas reservas metafísicas, nos campos de concentração psíquicos, mas
Pois senão que um mas revolucionário,
Um mas quase perdido, quase desesperado,
Mas não de oposição,
Um mas de concessão, de não ser capaz,
O admitir, e os seus ecos de paz,
sua pomba branca,
sua brancura bestial,
Portanto
Ao mais inextrincável emaranhar,
Às horas tácitas do desespero,
Ósculos.
Longos Ósculos Imperiais.
Sete.
Então é este o nojo original: os amares mais leves levantam ainda murmúrios nesta caverna de alma; Um elogio ao opróbrio de ser: As nossas línguas primatas em espiral e um vazio de promessa a perfazer o teu silêncio deambulatório em pezinhos de lã porquanto o nosso dardejar em segredo e sorrir não aceitava credos nem consequências durante o fôlego das canções que
Oito.
Mas neste útero de passividade
Estamos longe de vãs preocupações
Por isso decretamos que o amor prevalece.
O pensamento deslocado é,
Por vezes um aliado, deixando
Os sentidos vaguearem à mercê do mundo.
Nove.
Então os sentidos quiseram o céu,
Tudo à volta do que sucumbira, ascendeu.
O céu permaneceu perfeito
Implorando que o fitassem
E o brindassem com lágrimas.
Podíamos dar um sentido frio às palavras, um sentido frio às palavras repetidas e ao nosso velho bulício de asas e abrir caminhos imaginados,
Entorpecidos,
Vemos a vida latejar.
Estáticos,
Contemplamos este plácido festim de festejar terreno, a nossa vaniloquente loucura erradicada no hipotálamo a comandar a resistência psíquica, Velhos retornados da guerra da imaginação, Velhos sobreviventes moribundos já sem asas nem bulício, pois ao
Lembrar-me destas velhas rotinas canções pessoas desejos Velhos anjos da memória Velhas turbulências harmoniosas que, mesmo por entre os olhares automáticos das hostes, detinham em si aquelas horas embebidas em neurótico rastejar a mais ninguém que não a nós mesmos,
Não fosse a vida um longo e aprazível corredor de camélias, verbos, ónus, tempestades e
Interlúdios de jazz; insana tertúlia de saídas reinventadas na escuridão porquanto se tentavam os mais inóspitos destinos ao fazerem-nos parecer sequer possíveis.
O passar dos anos
Sem grandes consequências,
E fantasmas de nós, sem louros,
A vegetarem a solidão
E o monstruoso pânico do silêncio,
Nesta nossa dependência aos extremos de nós
Neste escasso cortejo de diamantes
E vielas feridas
Que por vezes os nossos atalhos
Sensoriais
Desperdiçam-se-nos ao atemorizador
Respirar de sonhos que compõe os segundos
Os minutos
As horas
E os dias
Porquanto o tempo humano é um fogo fátuo,
Uma mágoa trágica
A engolir-nos em rasgos sofridos
De testemunha
E existência.
Dez.
Acostumemo-nos ao ocaso irreflectido das coisas ante esta dinâmica animal e dêmos graças aos nossos vórtices do pensamento, esses pântanos inviolados, que o nosso mais tépido exílio nos afina a solidão dos sentidos com esta fria verborreia visceral, crua testemunha da lembrança,
Como me tinha esquecido eu, destas magníficas e antigas notas suspensas fora do compasso emocional conquanto esta musicalidade de metáfora se me esgotara, ameaçando-me a produtividade com a sua lentidão intemporal, a sua bem literal moção lenta de universo desconstruído que nos assombrava o crepúsculo, a ebriedade e a retina da Primavera,
Por todas,
Sim.
Por todas as Primaveras que não vivemos. Que sejam elas a metamorfose de pensamento em palavra, pois é na luz desse instante que me quero encontrar no acordar perfeito,
À nulidade ecuménica
Essa inquestionável carpete metafísica.
Onze.
Que confusão de sons, confusão de repente,
Confusão de noites,
E confusão de súbito todos os fonemas deste saxofone são morfemas com cheiro, aspirantes a sintagma, de uma outra palestra sinestésica, de encontros de outros sentidos, tipo, Que confusão de noites perdidas em asperezas de cores, pintamos estes plurais na nossa memória porque, sim, - não porque sim mas porque, sim, - nestes caminhos íngremes do traduzir o pensamento em palavras somos estranhos promíscuos na berma da estrada, caixeiros-viajantes felizes de fome e sem fome de felicidade sorrindo ao crepúsculo, pois depois, pois então,
Pois agora todos os sonhos estão livres
De significado,
Brandos por estarem feridos,
Com as suas feridas a serem feridas de nobres sonhos brandos por estarem feridos, Mas, porém, e porquanto dispomos da amável e elegante divisibilidade entre o ser e o estar, todos eles estão livres de significado,
nobres sonhos feridos, pois concerteza, pois senão
Pois senão questionemo-nos pela última vez na sarjeta, nas bermas hostis deste singular intelecto, à medida que alguns momentos se vão transformando em saudades, a ampulheta da juventude é a mesma da velhice.
Doze.
Justiça de mãos; imagens sombrias na escuridão do dia claro que nos mantém embriagados com estes paradoxos da razão, e que, neste racionalismo quase religioso, nos priva o instinto do prazer incauto e o empanturra de ilusão, neste pestanejar e acordar perfeito, minuciosa e requintadamente ofuscado pela luz liberta pela sensacional e fantástica, se bem que torturante, metamorfose do pensamento em palavras que cirandam sem rumo por estas páginas fora, sem mais orientação que não o descuido e a imprudência, Uma orientação de nobreza intelectual, pois claro, que a nós, tradutores do pensamento puro, o falhanço seja certeiro como a morte e a sua imparcial garantia nos corra no sangue frio da veia ou vaso de sucessos futuros que não chegarão a vir,
-para quê,
Se o sucesso é fraco e a mais corrompível de todas as coisas, mas nós, poetas menores, somos abençoados com a miséria que nos liberta do lado nefasto da loucura e do seu poder, assim como um caos anónimo e disperso libertara os sonhos do significado que os oprimia violentamente, e, e este e não é um e de consequência, é um e de adição, vazia como o efeito que vai anunciar, e todos foram felizes, não para sempre, mas viveram até uma idade avançada mesmo à luz da demografia envelhecida do mundo novo, pronto, o que já é bem bom, não nos acusem agora de finais tristes, mas, não esqueçamos, o mais importante é que todos felicíssimos
No vazio do futuro inacreditável
No doce vácuo da existência do presente imaturo
Que nos livra do sempre e do nunca, do tudo e do nada, do bem e do mal,
Amem.